UM PINTOR DE GATOS

GALERIA BACELOS

MADRID, 18.11.2017




























UM PINTOR DE GATOS
a D. Miguel de Mello.[1]

Era uma vez, em mui remotos tempos, uma familia de boa gente lavradora, vivendo em certa aldeia do Japão. Marido, mulher e um rancho de filhos; gente pobre, é claro; e ajunte-se que a mui ardua fadiga se dava o camponez, para que não faltasse em cada dia, a cada uma das vorazes boquinhas dos garotos, a tigela de arroz do almoço e do jantar. O mais velho dos rapazes, já aos quatorze annos, robusto quasi como um homem, começava a ajudar o pae, nas varzeas e nos campos, o pobre pae, a quem as forças minguavam; e os outros, cada um conforme a sua idade, iam fazendo tambem o que podiam; até a irman pequena,―uma migalha de gente, coitadita!―lá ia alliviando a atarefada mãe na lida do casebre.

Só o mais novo dos rapazes em nada se empregava que prestasse; era um inutil; não que elle fôsse falto de juizo; pelo contrario, excedia em esperteza qualquer dos irmãos ou das irmans; mas era enfezadito, debil de musculo; e bem cedo os paes se convenceram de que aquelles braços tenros não haviam nascido para a enxada.―«Faça-se d'elle um bonzo»,―combinaram; e foi n'esta intenção que um bello dia decidiram leval-o ao templo do logar, e á presença do velho sacerdote, que era como quem diz―o prior d'aquella freguezia.―O pae fallou e expoz a questão, em quanto que a mãe approvava com a cabeça; o reverendo, que em breve trecho descobrira rara sagacidade na creança, consentiu em tomal-a por pupillo, pensando talvez intimamente que alli o acaso lhe trazia um digno successor, quando a hora lhe chegasse de despedir-se d'este mundo.

E ficou tudo resolvido.

O noviço mostrou-se, desde os primeiros dias, submisso, intelligente e piedoso; e tambem―valha a verdade―não lhe iam mal a rude tunica amarella e a cabecita rapada á navalha, de preceito; mas como não ha formosa sem senão, segundo um proverbio portuguez (e a philosophia dos proverbios se applica á humanidade inteira), tinha um defeito o rapazito: pintar gatos. Expliquemos o caso, que é curioso: nas horas de sueto ou nas horas de estudo, no templo, na cella, no jardim, em toda a parte onde estivesse, punha-se a pintar gatos; e tão bem os pintava,―faça-se-lhe justiça n'este ponto,―que nenhum pintor até então pintou gatos melhor do que o fradinho. As paginas dos livros sagrados do convento, as paredes, os biombos, os pilares, as arvores, os rochedos,―forte mania de creança!―tudo servia, tudo era tela para exercer a sua pecha. Por onde elle passava, por onde se quedasse dois minutos, era logo a successão interminavel de desenhos, eram as curvas caprichosas dos travessos felinos, de todos os tamanhos, em todas as posturas, creio que até enjaneirados, os olhos redondos, esbrazeando as duas orelhas espetadas, o côtosito alçado e petulante (os gatos japonezes não têem rabo), a garra atrevida posta em guarda... Está-se a adivinhar com que azedume o reverendo acolhia taes desmandos; vezes sem conto reprehendeu o artista (como por ironia lhe chamava), tentando dissuadil-o d'aquella triste balda, que nem lhe permittia estudar com attenção os velhos alfarrabios do buddhismo, de tam necessaria sciencia ao seu santo mister. Intento inutil: não por maldade, por instincto, quanto mais lhe prohibiam a proeza, mais ia pintando gatos o teimoso. Até que finalmente, em certa occasião, o reverendo perdeu de todo a paciencia e gritou ao moço incorregivel:―«Vae-te embora! Foge da minha vista!... Bom padre, nunca serás seguramente; serás talvez um bom pintor.»―A ordem era terminante. Foi facil ao mocinho entrouxar os seus poucos haveres, pôz a trouxinha ás costas, e fez uma mesura ao padre mestre.

Eil-o na rua, escorraçado, em bem angustiosas condições. Que fazer? Tremeu de voltar ao lar domestico, onde o pae, mui certamente, o puniria da sua teimosia. Lembrou-se então que a quatro leguas de distancia havia uma outra aldeia, com um templo cheio de bonsos, e para lá se encaminhou, disposto a pedir abrigo e protecção aos padres. Era notorio que o tal templo desde alguns mezes se achava abandonado, por n'elle ter entrado um demonio, um espirito malfazejo, como tantos que abundavam então pelo Japão; muitos guerreiros animosos se tinham decidido a ir lá dentro, mas nem um só voltou; porem estas noticias, que iam ja apavorando aldeias e cidades em redor, nunca haviam chegado aos ouvidos do pequeno.

Era já noite escura quando alcançou a aldeia; o povo dormia nas choupanas; ao fundo da rua principal, e sobre um dorso de collina, de entre a rama das mattas erguia-se o templo magestoso, e uma luz interior bruxoleava, luz de esperança para a misera creança. Luz de esperança parecia: mas o povo bem a tinha por feiticeira do diabo, que assim manhosamente ia attrahindo algum caminheiro solitario em busca de poisada. Bate ao portal uma primeira vez, bate segunda vez, bate terceira, sem que ninguem acuda ao chamamento. Por fim percebe que basta empurral-o para abril-o; e então, por um leve impulso dos seus braços, achou livre o ingresso, e assim entrou, largando dos pés nús as suas sandalias poeirentas.

Nos aposentos interiores ardia uma lampada com effeito; mas nem um bonzo só, de tantos que alli deviam estar, apparecia. Julgou que tinham ido dar o seu passeio e que em breve voltariam, e resolveu esperal-os. O tempo ia passando, e os seus olhos curiosos de garoto entretinham-se em devassar o aspecto do sitio onde se achava. Notou com espanto que abundava o lixo, e pelo tecto as aranhas iam tecendo sem cerimonia as suas longas teias; era estranho que, sendo em regra os templos, mimos de limpeza e de cuidados, aquelle se encontrasse em tal desleixo, como se fôsse coisa abandonada. É que, provavelmente, aos santos bonzos faltava o auxilio d'um acolyto, a quem, como de praxe, cabe o dever de todas as manhãs lavar, varrer e sacudir o pó, arte exercida no Japão com especial disvelo; e concluiu logicamente que bom acolhimento lhe fariam, no proprio interesse da communidade.

Agora o rapazito, proseguindo no exame, fixa o olhar n'um movel que o captiva, que é um grande biombo que tem em sua frente, com as duas faces brancas; passára-lhe na mente o irresistivel desejo de encher aquellas faces de gatos, de cem gatos, de mil gatos, lindos, felpudos, assanhados, com as bigodeiras hirtas e os olhos chammejantes; e uma subita alegria illuminava-lhe o rosto sonhador... Pensado e resolvido. Cerca encontrou a classica escrivaninha japoneza,―a caixa com os pinceis, com a gota de agua n'um deposito metalico, com o pedaço de tinta negra e com a loisa onde esta se prepara.―Mãos á obra. O pincel voava em curvas humoristicas; a mãosinha inspirada corria, pullava de alto a baixo, ponto aqui, rabisco alli, traduzindo a impressão propria com habilidades prodigiosas. Assim fôram apparecendo, sobre aquella tela improvisada, ranchos e ranchos de gatos adoraveis; e tantos gatos desenhou, e tantas horas correram, sem que os bonzos voltassem do passeio, que o pobre garotito sentiu-se de repente cheio de somno e de fadiga; n'um cubiculo contiguo se recolheu e se fechou; estendeu-se sobre a esteira, e em breve adormeceu.

Lá pela noite velha, um barulho inaudito, como se uma terrivel lucta se travasse entre mysteriosos combatentes, despertou a creança. Os gritos, os gemidos, o ruido dos corpos que caiam, vinham de perto, do aposento visinho onde estivera; tremiam as paredes, o chão, a casa toda; a pelleja durou até á madrugada. Como elle soffria de pavor! Caido sobre a esteira, immovel, parecia coisa morta, sustendo o proprio folego, para que a sua presença não fôsse presentida...

Já com a manhã clara e sol bem alto, ergueu-se então, e animou-se a espreitar um pouco para fóra, por uma fenda da parede. Foi medonho o que viu. No chão grandes poças de sangue se alastravam; e mesmo ao meio da casa, jazia morta, esphacelada, uma enorme ratazana,―maior do que uma vacca!... Mas quem matára o monstro, se ninguem parecia ter entrado? Reparou por acaso no biombo, onde horas antes pintára tantos gatos; lá os viu, mas com os focinhos lambusados de sangue e as patinhas igualmente; eram elles que tinham dado cabo do demonio...

O mocinho tornou-se, com o correr do tempo, um grande artista. Ainda hoje se ademiram muitos gatos pintados pelo seu pincel inimitavel.

O chronista de quem extrahi esta legenda, nada conclue, como moralidade, da historia que narrou. Concluirei eu o que bem me parecer, se m'o permittem. Em primeiro logar, pouco propenso a crêr em coisas do diabo, embora mesmo no Japão, concluo que, se a rata do convento era tam grande, é que a despensa se achava provida com um enorme arsenal de gulodices; o que, a despeito de tanto que se diz dos frades de outras terras, dos frades portuguezes por exemplo, faz honra á sobridade de habitos dos maganos, pois não consta que jamais os presuntos e a marmellada de reserva nutrissem uma rata lambareira até attingir igual tamanho. Concluo ao mesmo tempo, humilhado, confundido, que os pintores do meu paiz estão bem longe do traço creador dos pintores do Dai-Nippon. Por ultimo (e talvez esta final conclusão seja a mais util), vejo que ás vezes as nossas qualidades, de que os outros se riem e escarnecem, são as que mais nos valem n'este mundo.


Wenceslau de Moraes, 1901.

in Paisagens da China e do Japão

https://www.gutenberg.org/files/25537/25537-h/25537-h.htm














































































































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